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Finanças

Track & Field cresceu com negócio promissor, mas IPO divide opiniões

Companhia estreia na bolsa no dia 26 de outubro, mas governança corporativa preocupa. Veja os prós e contras da oferta de ações.

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em

por

Katherine Rivas
Track and Field

Apesar da crise, 2020 tem sido marcado pela volta dos IPOs (ofertas públicas iniciais de ações), que já superam R$ 96 bilhões. E não só grandes companhias estão entrando no mercado de capitais. Nanicas e médias conseguiram movimentar volumes promissores, garantindo diversidade ao investidor. A próxima da fila é a Track & Field, varejista de porte médio focada em bem-estar e moda fitness, que estreia na bolsa em 26 de outubro, sob o código TFCO4.

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O prazo de reserva para os investidores no IPO termine nesta quarta-feira (21). A companhia chega ao mercado com a expectativa de levantar R$ 629 milhões. A faixa indicativa de preço foi estabelecida entre R$ 10,65 e R$ 14,95. O preço da ação será fixado no dia 22 de outubro.

Apesar do nome gringo, a companhia é 100% brasileira e atua na venda de vestuário esportivo, lifestyle, moda de praia e calçados. Foi fundada em 1988 por três amigos: Alberto Azevedo, Frederico Wagner e Ricardo Rosset. Em todo o período, não parou de crescer, mesmo com poucos recursos, graças a um sistema bem-sucedido de franquias. A Track & Field tem 234 lojas no Brasil, sendo 37 próprias e 197 franqueadas.

Nível 2 de governança preocupa

Destoando de outras companhias do varejo, a Track & Field não será listada no Novo Mercado, maior nível de governança da B3 e que exige que as companhias tenham apenas ações ordinárias. A empresa optou pelo Nível 2 de Governança Corporativa, no qual pode emitir ações preferenciais (PN), além das ordinárias, situação que preocupa alguns especialistas.

A empresa pretende inovar na área de governança adotando uma estrutura de supervoting stock, modelo que é raridade no Brasil, mas muito comum nas bolsas americanas. Traduzindo: por cada ação preferencial (PN), o investidor terá um direito econômico 10 vezes maior que as ações ordinárias (ON).

Desta forma, os acionistas vendedores podem manter o controle da companhia, mesmo após o IPO. No caso da varejista, eles continuariam com 66% do poder acionário. E além disso, cada ação preferencial vai pagar 10 vezes mais dividendos do que a ação ordinária.

Segundo relatório da Eleven Financial, são poucas as companhias brasileiras que optaram por este modelo: é o caso da Azul (AZUL4), que até agora sente os conflitos da escolha. Um setor no qual o supervoting é muito utilizado é o de tecnologia: empresas brasileiras listadas em Wall Street já utilizaram a estratégia, tais como Stone e PagSeguro. Mas, será que está na hora de reinventar a roda?

Afinal, a maioria das varejistas brasileiras negociadas na bolsa está listada no Novo Mercado, com exceção apenas de Lojas Americanas e Guararapes. Até o Pão de Açúcar (PCAR3) migrou recentemente para o Novo Mercado. A Track & Field vai ofertar 49,2 milhões de ações preferenciais (PN), distribuídas em dois blocos:

  • Oferta primária (quando os recursos vão para o caixa da companhia): 40% dos papéis, em média 19,7 milhões de ações. Segundo a Eleven, a expectativa é levantar R$ 253 milhões.
  • Oferta secundária (quando os atuais sócios vendem parte da sua participação e embolsam os recursos): 60% dos papéis, em média 29,4 milhões de ações. Segundo projeções da Eleven, a expectativa é obter R$ 376,9 milhões.

Ainda é possível que ocorra um lote suplementar com a venda de 7,4 milhões de ações. Caso isso aconteça o free float da Track & Field será de 31% do capital total.

Para onde vai o dinheiro?

O destino dos recursos do IPO já gera discrepâncias entre as casas de análise. Segundo a companhia, o dinheiro da oferta primária, em média R$ 253 milhões, será distribuído da seguinte forma:

  • Pagamento de dividendos: 57% dos recursos serão destinados a remunerar os investidores, com dados declarados até dezembro de 2019. Isso representa mais da metade dos recursos levantados na oferta primária, em média R$ 132,5 milhões.
  • Pagamento antecipado de dívida: 15% dos recursos serão destinados a reduzir o endividamento, o que representa em média R$ 34 milhões.

Apenas 23% dos recursos da oferta primária serão destinados a melhorias nos processos operacionais da Track & Field.

  • Investimento na plataforma de bem-estar: 13% dos recursos serão destinados ao lançamento de uma nova plataforma wellness, em média R$ 30 milhões.
  • Investimento em inovação tecnológica: Apenas 10% dos recursos serão destinados para melhorar a estratégia O2O (online to off-line), em média R$ 23 milhões.
  • Investimento na cadeia de produção ou centro de distribuição: Os últimos 5% (em média R$ 11 milhões), serão destinados para melhorar os processos de produção da companhia.

Em relatório, Tiago Reis, analista-chefe e fundador da Suno Research, questiona a eficácia de destinar mais da metade dos recursos ao pagamento de dividendos. “Isso é algo negativo, pois indica que, na prática, uma parcela bem menor do caixa auferido pela oferta primária será aplicado de fato na empresa”, aponta.

Para Daniella Bretthauer, especialista em varejo e analista co-head da Eleven Financial, não faz sentido abrir capital para pagar dividendos aos investidores e uma dívida pequena. “Usar os recursos de um IPO para dividendos não é a melhor das opções”, afirma. E acrescenta que a política de distribuição de proventos também não está muito clara no prospecto, o que seria mais um tiro no pé. “Uma política atraente poderia ter amenizado outros conflitos como os de governança”, defende.

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Vale a pena ou não?

Os especialistas consultados pela reportagem divergem sobre investir no IPO da Track & Field, mas todos olham com cautela a abertura de capital da companhia.

Daniella da Eleven Financial, por exemplo, não recomenda a participação dos investidores na oferta pública inicial e recomenda uma análise minuciosa na hora de comprar ações TFCO4 no mercado secundário. “Prefiro aguardar a ver o desempenho da ação, os resultados e se a companhia vai mudar suas práticas de governança”, explica. A analista discorda totalmente da estrutura do conselho, composto por nenhuma mulher e com a presença de três fundadores, ela espera que na votação de abril de 2021, as coisas mudem.

Já Tiago Reis, da Suno, recomenda em relatório investir no IPO da companhia, desde que a ação seja negociada na sua faixa mínima de preço, R$ 10,65. Para ele, este valor compensa os riscos posteriores e dá uma margem boa de valorização. “Neste preço, vemos um potencial de upside atrativo e também uma margem de segurança adequada”, reforça em relatório.

4 vantagens de investir na companhia

Ambas casas de análise contrapõem as vantagens e desvantagens de participar no IPO da Track & Field. Embora o modelo de negócios seja atrativo e tenha chances de crescimento, há dúvidas sobre a governança e a falta de foco, utilizando os recursos do IPO para pagar dividendos. Entre as principais vantagens de investir na companhia, eles destacam:

  • Nicho de mercado: a Track & Field está ligada ao bem-estar e estilo de vida saudável, segmento que se tornou tendência nos últimos anos e está crescendo com força.
  • Mercado fragmentado: o nicho de vestuário esportivo facilita o crescimento de pequenos players. Grandes marcas dominam 37% do mercado, enquanto há 63% disponível para novas marcas, uma oportunidade de crescimento.
  • Modelo de negócios asset light: se refere a companhias que crescem sem necessidade de grande aporte de capital. É o caso da Track & Field, 84% do seu modelo de negócios está representado por franquias.
  • Múltiplos elevados: a companhia tem múltiplos elevados semelhantes aos das principais concorrentes e grandes players internacionais. O múltiplo da Track & Field é 39, enquanto da Nike é 40, da Lululemon é 47 e da Adidas é 32.

A companhia também é forte na venda digital. Nos últimos anos investiu com força no e-commerce e pretende destinar parte dos recursos do IPO para melhorar a experiência dos usuários nas plataformas. Segundo o Net Promoter Score, métrica que avalia a lealdade dos clientes, os consumidores da Track & Field se mostram muito satisfeitos com os produtos da empresa.

Embora ninguém reclamedo modelo de negócios, a estratégia adotada na governança corporativa preocupa o mercado. Segundo Daniella, da Eleven Financial, não faz sentido adotar um modelo comum nas bolsas americanas, mas ainda muito duvidoso na bolsa brasileira. Isso tendo em vista que muitos investidores consideram a governança um pilar importante na hora de escolher uma empresa.

Além do supervoting, a analista destaca que há pouca diversidade no Conselho, onde não há mulheres. “Para uma companhia com 77% do público-alvo feminino isso não faz o melhor sentido”. Além da ausência de diversidade, os três fundadores também fazem parte do conselho, o que pode gerar um conflito de interesses.

O fato de a companhia optar pelo Nível 2 de governança, ao invés do Novo Mercado, prova também a dificuldade que os fundadores têm de abrir mão do controle. “Se é algo que eles não procuram no momento, para que fazer IPO?”, questiona.

Ela acredita que os coordenadores da oferta BTG Pactual, Bank of America e Itaú BBA deveriam ter assessorado melhor a Track & Field no processo de abertura.

5 desvantagens de investir na empresa

Confira os pontos negativos de participar do IPO apontados pelos especialistas:

  • Concorrência de grandes players: marcas internacionais como Nike, Adidas podem aumentar a sua presença no Brasil. Especialmente com a Centauro, que adquiriu em 2020 a operação da Nike no Brasil, para se tornar distribuidora exclusiva dos produtos.
  • Uso dos recursos para pagar dividendos: como citado acima não foi bem avaliado pelas casas de análise, em vista de que o investimento na companhia é quase nulo.
  • Dificuldade em abrir franquias e lojas: pode ser afetado por fatores externos a companhia como crescimento dos concorrentes. Como a Track & Field deve seu sucesso ao crescimento de franquias, isso seria prejudicial para a sua receita.
  • Empecilhos no modelo de negócios: entre estes a continuidade da pandemia que pode impactar nas vendas e fluxo de caixa, variações climáticas ou mudanças nas preferências do consumidor.
  • Nível 2 de governança e supervoting: fundadores com o maior controle e conselhos pouco diversos.

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